30 de novembro de 2020

“Qualquer empresa pode estruturar sistema de governança e colher os benefícios disso”, diz especialista

 

A coluna dessa semana traz uma entrevista com o advogado Marcos Herszkowicz, sobre um assunto que chama atenção de empresas de todos os portes e setores e que pode interferir diretamente na sua carreira, a Governança Corporativa.

Além de advogado de formação, Marcos é cofundador da Escola F – Educação para Famílias Empresárias, faz parte da rede de Mentores da Endeavor Brasil e do Porto Social e é sócio da Audens Board, braço do Audens Group especializado em estruturação de Conselhos Consultivos em empresas e recrutamento e seleção de conselheiros.

Se você quer entender o que é e como funciona a Governança Corporativa e como ela pode influenciar na sua carreira, não deixe de conferir a entrevista completa:

Felippe Pessoa: Marcos, qual o conceito de Governança Corporativa?

Marcos Herszkowicz: O tema comporta algumas definições. Para o Instituto Brasileiro de Governança Corporativa, IBGC, trata-se do “sistema pelo qual as empresas e demais organizações são dirigidas, monitoradas e incentivadas, envolvendo os relacionamentos entre sócios, conselho de administração, diretoria, órgãos de fiscalização e controle e demais partes interessadas”. De forma mais simplificada,

gosto de definir como um conjunto de acordos, rotinas e formas de relacionamento que garantem, dentro de uma organização, um fluxo adequado e tempestivo de informações e decisões.

FP: Este modelo é aplicável em qualquer empresa?

MH: Qualquer empresa, independentemente do segmento de atuação ou porte, pode estruturar um sistema de governança e colher os benefícios disso. O importante é identificar o contexto e a realidade de cada empresa e estabelecer a “dose” adequada. O modelo deve se adequar à complexidade e maturidade da organização – e não o contrário.

FP: De que forma as empresas podem iniciar a implementação do modelo?

MH: A partir de um diagnóstico sobre os aspectos mencionados na pergunta anterior que identifique, dentre outros aspectos, o estágio de maturidade da gestão da empresa e seus desafios estratégicos, é possível sugerir a “dose” inicial de governança. Usualmente, isso passa pelo alinhamento de alguns grandes objetivos entre os sócios, a criação de uma pauta estratégica e a instalação de alguns fóruns específicos de decisão, como um uma diretoria ou um conselho, por exemplo.

FP: Como se pode definir o grupo que será responsável por deliberar as decisões na empresa?

MH: Usualmente esse grupo já está definido, na prática. E isso é retratado no diagnóstico inicial. O ponto de evolução é formalizar essas alçadas de decisão, criar uma forma clara e transparente de como se dão tais decisões e um parâmetro de delegações, vez que as organizações precisam, necessariamente, estabelecer camadas de decisores para conseguir expandir de forma consistente e sustentável.

FP: Quais os desafios de implementar a Governança Corporativa em empresas de pequeno e médio porte? E em empresas familiares?

MH: Há uma série de mitos relacionados à implantação de governança em PMEs – a grande maioria deles falsos. O primeiro deles, já abordado acima, é o que chamamos de “dose”. Há uma fórmula adequada de governança para cada organização, mais ou menos complexa. Aplicar um certo grau de formalidade; investir algum tempo em planejamento; adequar os investimentos ao orçamento disponível e, principalmente, um comprometimento genuíno da Alta Administração e donos com o projeto de implantação são alguns  desafios que valem ser mencionado. Quando esse contexto envolve uma empresa familiar adiciona-se à equação mais uma variável – extremamente importante – que são as relações entre os membros da família. Isso geralmente demanda um esforço adicional de implantação simultânea de uma governança familiar, que irá regular as zonas de contato da família com o negócio.

FP: Quais os benefícios que o modelo traz às organizações interna e externamente?

MH: Um projeto de governança implantado com sucesso traz inúmeros benefícios. Por se tratar,  essencialmente, de um mergulho profundo no próprio negócio, traz imediatamente uma visão dos desafios estratégicos daquela organização. Internamente, pode significar uma evolução na previsibilidade e assertividade das decisões, assim como no monitoramento dos resultados. Pode, ainda, estruturar melhor processos de sucessão e demais aspectos relevantes à longevidade da organização. Do ponto de vista externo, significa uma evolução na forma como ela se relaciona com seus diversos stakeholders e, até, no rating bancário, por exemplo, ampliando as formas de acesso à capital e barateando o custo do dinheiro.

FP: Há riscos na implementação da Governança Corporativa? Quais?

MH: Os riscos geralmente estão associados à desistência durante o processo ou a alguma acomodação de práticas recomendadas em favor de modelos ou rotinas “que sempre existiram” na empresa. A jornada de implantação tem começo e não tem fim, costumo dizer. Trata-se de um projeto de longíssimo prazo, com etapas e discussões nem sempre agradáveis – mas que precisam ser superadas, porque geralmente são inevitáveis. É importante enxergar os esforços como uma evolução contínua.

FP: É possível voltar a um formato tradicional de gestão após a implementação da Governança Corporativa?

MH: Mesmo em processos mal sucedidos de implantação de governança é possível dizer que uma semente é sempre plantada. Pontualmente, pode existir um retrocesso que signifique retornar a um modelo de gestão menos estruturado, mas ao experimentar algumas dinâmicas novas de governança os líderes daquela organização por certo refletirão sobre benefícios percebidos – ainda que isso leve algum tempo. O que é certo é que não se conhece história de organização bem sucedida e longeva que não tenha aderido a algum nível de governança.

Conteúdo postado originalmente na Coluna Carreiras e Mercado de Trabalho, de Felippe Pessoa, no site do Jornal do Commercio.

 

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