Para o professor Henrique Camargo fazer uso da IA é mais que necessário, mas quem faz uso com raciocínio lógico e pensamento analítico vai se sair muito melhor
Henrique Camargo, 32 anos, é daqueles que podemos chamar de curiosos tecnológicos, ou melhor, estudiosos da tecnologia e seus caminhos. Formando em Bacharelado Gestão da Informação e mestrando em Tomada de Decisão, hoje ocupa o cargo de Diretor de Operações da Monest, fintech na área de recuperação de crédito e que orgulhosamente ele ressalta que foi a primeira empresa de recuperação no uso da IA generativa para criação de cobrança e que em menos de dois anos já havia quadruplicado de tamanho e eficiência.
Esse paranaense de Curitiba foi um dos professores na primeira turma de Formação em Inteligência Artificial para Executivos, realizado pela Audens, no Recife. E claro que o Audens Entrevista não poderia deixar de escapar a oportunidade e bater um papo com esse craque da IA
Como a Inteligência Artificial chegou pra você, seja no aspecto pessoal ou profissional?
Eu sempre fui um curioso. Gosto de mexer, de procurar. No final do ano de 2022, quando globalmente a chat GPT explodiu eu comecei usar, brincar e entender. Tinha pouca metodologia. Mas fiquei impressionado como a resposta era muito natural. Mas na empresa em que eu trabalho foi muito rápido. Digamos que em 2023 veio muito para o Brasil e março o CEO da nossa empresa “despertou” que precisava entender e fazer funcionar a nosso favor. Passou três semanas estudando e chegou a conclusão de que a IA tem um uso mais complexo do que estavam usando. Para o nosso mercado de cobrança isso foi impactante. Daí reorganizamos a empresa e em três semanas desenvolvemos o nosso produto. Nos forçou a estudar e a entender mais de inteligência artificial.
Quando você fala em complexo, te pergunto didaticamente: o que seria a complexidade da IA?
Não é a complexidade em si, mas o potencial de uso, que é muito maior do que esse uso trivial e corriqueiro. Nesse momento já sabe-se mais disso. Em 2023 não era óbvio que era importante estudar, fazer cursos como esses ministrados pela Audens, por exemplo. É complexo quando você precisa usar no nível 3. Falar simplesmente de IA era abrir o site do chat GPT era básico e chegou até virar meme. As pessoas falavam a “IA erra”, mas para quem entende de tecnologia, começa a usar e entender de onde parte aquele modelo realmente o uso fica mais sofisticado. As pessoas que não entendem de tecnologia ficaram muito no basicão. Você tem uso mais sofisticado. É uma bandeira que a gente tem. Precisa trabalhar a teoria porque amanhã o botão vai mudar. Você precisa saber o fundamento, porque se a gente ensina as pessoas só a apertar botões, as pessoas rapidamente vão matar esse conhecimento.
Dentro da lógica de uma empresa chegamos a conclusão de que todo mundo tem que entender um pouco de tecnologia?
Guilherme Weneck, CEO da Gerdau diz que nenhuma empresa pode se dar ao luxo de não se ver sem ser uma empresa de tecnologia. E olhe que ele é CEO de uma siderúrgica. Mas porque ele usa esse exemplo. O RH tem sistema, o comercial tem CRM, o financeiro tem sistema, a área de logística. Não existe um setor que hoje não está 100% informatizado. Basicamente hoje se você precisa trabalhar daqui ou da China você precisar levar o notebook que tem acesso à internet e tá feito. Pode parecer bobo e trivial, mas antes não era isso que você precisava para executar seu trabalho. Tudo hoje está dentro de ferramentas e isso se traduz automaticamente em dados. Entender de tecnologia não significa montar, ser programador! A gente usa uma expressão que eu gosto muito que é “letramento tecnológico”. Você não precisa saber códigos, hardware, da máquina. Mas você precisa entender aquele funcionamento. Quando você entra num site ou no aplicativo de celular você está vendo algo. Você tem que saber mais ou menos que atrás daquele algo algumas coisas acontecem. De quando você clica um botão não é por uma mágica que as coisas acontecem. Requisição, banco de dados, saber desse fluxo é importante. Porque falando de tecnologia as pessoas têm uma expectativa irreal e ingênua de milagre. Realmente você vê coisas impressionantes, mas ai você manda um ‘eu quero que a IA me ajude a reconstruir minha empresa? Como? O que você quer com esse problema? O que você quer combater?
A Inteligência Artificial não é pílula da felicidade no mundo empresarial que vai resolver todas as questões. O que seria a IA e nos últimos anos você considera a invenção mais revolucionária?
Dos cinco últimos anos com certeza. É uma linha do tempo meio clara. Eu gosto dessas reflexões amplas de sociedade mesmo. Você teve a revolução cognitiva, do fogo, da roda, depois agrícola, manufaturados, industrial em escala. O mundo foi mudando e depois cada vez mais nas linhas do tempo não há uma demora para a próxima revolução. Fica tudo mais veloz. Mas depois do computador, internet e celular a Inteligência Artificial foi, com certeza, uma inovação. A IA generativa é uma inovação que muda a forma como a gente vive, se relaciona, faz. Ela está em tudo.
E no seu entendimento como as empresas devem e estão se preparando com as questões da IA?
Saber perguntar envolve raciocínio lógico, pensamento analítico, e daí como se preparar, seja o individuo ou seja a empresa? A resposta mais amarga, mais sincera é: você tem que aprender a aprender. O teórico Alvin Toffler tem uma frase que diz o seguinte: “o analfabeto do século 21 não é o que não sabe ler, nem escrever. É o que não sabe desaprender para então reaprender”. É um pouco disso. Se você há muito tempo fez um curso de operação de máquina você usou isso por anos. A velocidade não era tão rápida. Se hoje você faz um curso de IA isso não vai mais te ajudar por 30 anos. Não é uma habilidade que vai te manter oxigenado por 30 anos. Na verdade talvez não vai te deixar oxigenado por dois. O segredo muito entre aspas de desenvolvimento é o que a gente chama de soft skill . Você precisa ter “raciocínio analítico e pensamento crítico” porque daí com isso pode mudar a ferramenta, pode mudar o botão, pode mudar a tecnologia você seguirá com habilidades, capacidade e alto conhecimento para aprender que você vai conseguir se adaptar. Você conhece seus gatilhos, pontos fracos, o que você tem de dificuldades, mas você consegue compreender os porquês, as causas e consequências das coisas. Conhecimento e mentalidade crítica sempre vão ser úteis.
Todos as empresas precisam da IA?
Eu não gosto da falácia de que a partir de agora sem IA não vivo. Depende do modelo de negócio dela. A padaria da esquina vai morrer se não usar IA? Claro que não. Se ele anotar tudo no caderno, tive um preço ok e um bom pãozinho ele vai sobreviver e inclusive ser bem sucedido no negócio dele. Agora se ele quiser virar franquia aí lascou! Tem que ter. Mas se não quer crescer não precisa de IA. Você consegue gerenciar o seu negócio até onde o braço alcança. Mas se você vai usar sistema, usar dados. Vai ser bem difícil fugir da ferramente de IA. Porque uma empresa média que tem planos de crescer vai ter área financeira, vai ter RH, logística aí só com o braço não dá certo. Não alcança mesmo. A IA passa a ser necessário.
Uma pergunta bem básica, mas que muito se questiona: IA é aliado, rival, vilã?
Ela é tudo isso. Porque ela é uma tecnologia. Ela é um meio, não é uma finalidade. Vamos usar em qualquer coisa porque está na moda, aí você só vai gastar tempo, dinheiro. Atenção para fazer uma coisa que a gente não sabe nem que resultado espera. A IA é uma tecnologia, uma ferramente como o machado, do metal. Ela é meio não esqueçamos. É uma tecnologia que pode ser usada para o bem para o mal e que eu gosto de ter uma perspectiva otimista.
E nesse pensamento otimista como você vê os desdobramentos da própria IA?
A IA está cada vez mais sendo especializadas. Inclusive porque você consegue ter o uso técnico. Grandes grandes players estão desenvolvendo esses filtros, digamos assim. Custa muito dinheiro. Você tem sempre que criar seu modelo? Não, pelo contrário. Pode usar o que está pronto. Agora que está difícil competir com os grandes. Melhor usar um modelo que já esta pronto. Mais do que ficar tentando criar versões é melhor se aprofundar para que eu possa usar e gerar valor com o que eu faço. A IA como meio. A minha empresa mesmo, o nosso core não é IA, é cobrança. Tem que ser o que é mais eficiente. Gerar eficiência isso é que molda o uso da IA. Se está valendo a pena. Pensando vazio se perde. Gerar significância em relação ao teu propósito. Gerar escala e diminuir custo se o resultado final for melhor sim, faça o uso. Agregar valor.
Precisamos ter medo da IA?
Depende (risos). Vamos usar um exemplo de um design de interior. Você ou tua empresa pode pedir um ambiente. A IA vai fazer. Mas ela vai te ajudar a pensar, vai te dizer medidas exatas, voltagems, onde está a tomada? Não. Agora se você é um arquiteto e sabe tudo isso e usa a IA você está potencializando sua proposta de valor. Você sabe e sabe o que perguntar. E não vai existir uma pessoa que vai saber perguntar tudo e sobre tudo. Existe sim uma pessoa que usa bem IA e isso aumenta a autonomia das pessoas. Gosto sempre de lembrar da frase “nenhum homem será mais poderoso que uma máquina, mas nenhuma máquina será mais poderosa que um homem com uma máquina” – é a união das duas. Há imagina, eu trabalho com isso há 40 anos Não é uma máquina que vai me substituir, vai. Mas a teoria eu trabalho com isso há 40 anos e eu estou estudando mais e uso IA,será mais complicado a máquina te substituir. A LLM é uma varredura que lê a internet inteira. Mas tudo sobre o teu negócio está na rede? Não. Tem coisa que só você sabe. Só você conhece teu cliente, teu funcionário, o pedido dele, a característica da região. Nem tudo é técnico, nem tudo está descrito, posto como como dado. O que não tá lá dentro das áreas profissionais previsa saber e aprender IA pra que você potencialize o que só você sabe e isso gere alguma coisa. Mas vale o medo? Vale.